Foi no início de uma noite fria e límpida de julho de 2005, a lua cheia apontando no horizonte de Vassouras, que pudemos concretizar uma das tarefas mais difíceis a serem executadas até agora por este site. A missão era uma entrevista, objetivando compor uma matéria em homenagem ao Ir.'. mais antigo da Loja, o que poderia ter um resultado frustrante, diante do ineditismo da tarefa e das expectativas que a iniciativa gerou.
Munidos de um questionário, e algumas idéias como acessório, partimos para a missão. O entrevistado, Ir.'. José Liberano, nos recebeu de forma tão calorosa em sua residência, que desde o início pudemos perceber que o frio da noite iria ficar lá fora. A acolhedora recepção do entrevistado alimentou, por algumas horas, um relato que nos remeteu a vários desdobramentos e, graças à sua intensa participação, pudemos fazer a matéria tranquilamente, num agradável bate-papo recheado com fotos, diplomas, objetos e documentos cuidadosamente guardados que traduzem de maneira fiel, o zelo e o carinho do Ir.'. para com as coisas da Maçonaria e que relembram alguns dos momentos mais importantes vividos pelo homenageado.
Nascido em Porto Novo do Cunha, MG, em 08/10/1916, o Ir.'. Liberano é o primogênito de uma família de quatro irmãos. Passou a infância em sua cidade natal, e uma de suas recordações mais vívidas é de que, próximo ao lugar onde costumava brincar, havia uma Loja Maçônica que lhe despertava, desde então, certa curiosidade.
O Ir.'. Liberano iniciou sua vida profissional trabalhando na instalação de linhas da rede de telefonia da então Cia. Telefônica do Rio de Janeiro. Saiu de sua terra natal aos 21 anos, para exercer aquela atividade em Barra Mansa, município da região Sul-fluminense. Sua competente atuação lhe valeu diversas missões por vários municípios do sudeste, tais como Araxá e Uberaba no interior mineiro e Itaperuna e Porto do Cunha no interior do estado do Rio de Janeiro. A forma brilhante como executou cada uma de suas missões proporcionou-lhe a nomeação como Encarregado da Seção de Construção da Companhia Telefônica do Estado do Rio de Janeiro.
Nesta última cidade, veio a conhecer sua futura esposa, D. Deuslyra, com quem casou-se em 1947, e transferiu-se imediatamente para Vassouras, vindo a residir à Rua Maria Gomes, no bairro do Madruga. É desta época que lhe vem mais uma de suas recordações peculiares. O Ir.'. lembra com muito humor e um brilho especial no olhar, o fato de que o meio de transporte, utilizado pelo casal entre a estação de trem e sua residência, foi uma charrete, uma vez que apenas 2 automóveis de praça atendiam a toda a cidade.
Da Companhia Telefônica, além de colher uma carreira brilhante, também marcou-lhe outro fato que o acompanharia pelo resto de sua vida - a ligação estreita que doravante teria com a Maçonaria.
Ir.'.José Liberano, com alfaia de Venerável Mestre
(1986)
Indicado para ingressar na Ordem pelo então Chefe Comercial de Equipamentos da Companhia Telefônica do Estado do Rio de Janeiro, Sr. Sílvio Martins, - homem de grande integridade e valor, a quem muito admirava e um grande amigo - uma vez iniciado na Ordem, dela jamais afastou-se.
Foi na Maçonaria que o Ir.'. Liberano colheu uma outra trajetória, igualmente brilhante, ao longo de sua vida. A Luz Maçônica veio-lhe no Templo da Loja José Bonifácio, de Barra do Piraí, cuja data o Ir.'. tem de memória e declina, sem titubear: 06 de Junho de 1955.
Portanto, passados 50 anos de sua iniciação, seu amor pela Ordem continua com a mesma intensidade com que certamente trilhou os primeiros degraus da filosofia maçônica. O Ir.'. José Liberano participou da primeira reunião da Loja Cultura de Vassouras, logo após a fundação da mesma, em 1970. O efetivo de obreiros na época era pequeno, o que aumentava a responsabilidade de cada um dos envolvidos, os recursos eram escassos e a improvisação, inevitável. A determinação dos Irmãos foi sendo demonstrada com a continuação dos trabalhos ainda que em ambiente diverso, como o consultório do Ir.’. Mário Branco, ou na sede do Fluminense ou no Templo improvisado na antiga torrefação do Café Agulhas Negras, onde hoje funciona a Gráfica Palmeiras. Naquela época, o Templo da Loja era muito simples, de cimento liso, que era encerado com freqüência. Os móveis haviam sido doados por um Ir.’. de Mendes. Os bancos das colunas são os mesmos usados até hoje. No teto não havia nenhuma decoração e havia uma abertura na parede lateral por onde entrava a luminosidade e ventilação.
Foi com estas condições iniciais que a Loja viu nascer verdadeiros gigantes com a missão de elevá-la à condição de estabelecer-se em sua sede própria. Durante o ano de 1973, foi instituída uma contribuição mensal de Cr$ 20,00 para constituição de fundos para aquele fim.
O ano de 1974 foi muito importante para o destino da Loja, tendo o Ir.'. Liberano, por várias vezes efetuado doações , até mesmo de sua restituição de Imposto de Renda, tal era a vontade de concretizar o sonho da sede própria da Loja. Destacaram-se, também, as colaborações dos IIr.'. José Batista Netto e Mário Branco, que junto com Ir.'. José Liberano, fizeram um apelo para que suas contribuições fossem discretas, com o objetivo de não constranger outros irmãos que, porventura, não tivessem as mesmas condições de ajudar pecuniariamente.
| Jorge Pereira, (?) |
José Liberano, Luiz de Casali, Vicente Roberto da Cruz Leal, Gualdo Feldhaus
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José Ribamar, (?), (?), Laert Élcio Fonseca, Francisco João, Nilson, (?)
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(?) , (?), José Liberano, Luiz de Casali, Fernando Rocha, Élzio, Mário Branco
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| Roberto Mancusi, Antonio José da Silva Martins, Jorge Carlos Pereira, Álvaro Fernandes Souza, Newton dos Passos Alves |
Adauto de Souza Telles, Adail Leal de Serpa Pinto, William Liberano, Alexandre Leal de Serpa Pinto, Julio Hofacker
| William Liberano, Adail, Joaquim (Ven.'.M.'.da Loja José Bonifácio), ? |
José Liberano, Jorge Pereira
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Desenho em Perspectiva da Loja Maçônica Cultura de Vassouras
O Ir.’ Liberano compõe como 1º Vigilante, a chapa eleita para o biênio 1975/1977.
Em 1976, iniciam-se as conversações para a aquisição de um terreno para construção da futura sede da Loja. Esta idéia transformou-se numa obsessão entre os poucos obreiros da Loja, e a idéia ia ganhando mais força e não se falava em outra coisa. Poucos, talvez não passasse de meia dúzia, o número de obreiros em condições de arcar com outros compromissos financeiros, além dos encargos que já lhes cabiam. A idéia inicial era adquirir um terreno onde seria instalado o “Clube das Acácias” ou “Acácia Clube”.
Este ímpeto e arrojo brindaram a Loja com o anúncio feito pelo Venerável da época, Dr. Mário Branco, com um convite aos IIr.’. para visitarem o terreno adquirido pelo Acácia Clube, onde seria construído o Templo da Loja.
Animados com a notícia, os IIr.'. promoveram uma grandiosa festa junina, no pátio do Colégio Raul Fernandes, que contou com a participação de praticamente todos os obreiros da Loja. As barracas foram armadas pela equipe de empregados do Ir.’. Liberano. Entretanto, as dificuldades continuavam, mas não eram suficientes para desanimar esses valorosos maçons. Quanto maiores as dificuldades, maior era a determinação desses irmãos. Os IIr.'. João Batista Werneck, Élzio Ramalho, José Liberano e Mário Branco, contraíram empréstimo bancário, no valor de Cr$ 429.000,00, cada um, e o doaram à Loja. Não seria essa a primeira vez, nem seria a última, que esses beneméritos irmãos dariam demonstração de notável desprendimento para com a Loja Cultura de Vassouras e para com a Maçonaria.
A empresa Tele-Redes e Comunicações, cujo sócio gerente era o Ir.'. José Liberano, fez uma doação de Cr$ 15.000,00 para as obras de construção do Templo.
Foi assim que o dia 1º de maio de 1980, dia do Trabalho, passou para a história da Loja Maçônica Cultura de Vassouras, como o marco inicial da construção da sede própria e de seu Templo, cuja sagração veio a ocorrer em 29 de junho de 1981.

Canteiro de Obras
O Ir.'. José Liberano foi o terceiro Venerável Instalado na Loja Cultura de Vassouras, tendo sua primeira administração ocorrida no biênio 1983/1985. Ficou à frente da Loja também pelo período de 1985/1987.
Neste momento, acreditamos ser importante uma reflexão sobre tudo que foi brevemente relatado aqui, e que por força da concisão, não traduz metade do que foi o esforço e dedicação desses homens corajosos, aos quais homenageamos através da figura do nosso querido Ir.'. José Liberano. Muitas vezes, lemos os livros, e deparamo-nos com personagens famosos, reconhecidamente maçons, vários deles participando de momentos de heroísmo ou de bravura, muitos tendo doado até a própria vida, como mártires de movimentos históricos e que alteraram para sempre os destinos de suas nações e consequentemente da História. Esses heróis, são, sem dúvida alguma, motivo de muito orgulho para a Ordem, e sua determinação, exemplo de emulação por todos os maçons.
Mas, os livros de História, infelizmente, não contam todos os detalhes, até porque seria impossível relatar passo a passo, dia a dia, tudo que aconteceu através dos séculos e milênios, em todos os lugares do planeta. Sendo assim, uma parte preciosa desta história a que nos referimos aqui, particularmente importante para os maçons vassourenses, está para sempre gravada nos arquivos da Loja Cultura de Vassouras. Nossos heróis não travaram batalhas campais e, felizmente, não precisaram ser alçados à condição de mártires, mas sua perseverança, entusiasmo e união em torno da causa maçônica nos deixa a certeza de que, guardadas as devidas proporções, sabemos que tivemos e temos verdadeiros gigantes em nossa Loja, homens que brilharam nas situações mais difíceis, na árdua tarefa de concretizar os ideais fraternos de um mundo mais justo e dotado de igualdade.
Destarte, a Loja Cultura de Vassouras, a exemplo de diversas outras ocasiões, presta uma vez mais este reconhecimento e homenagem a esses IIr.'. , sintetizados aqui na pessoa do nosso Ir.'. José Liberano, obreiro mais antigo e em atividade da Loja, desta vez utilizando-se do recurso que é este site, o qual possibilitará o acesso à informação para todos que assim desejarem. Dessa forma, fica a trajetória do Ir.'. Liberano perpetuada e desejamos que venha servir às futuras gerações de maçons como um extraordinário exemplo a ser seguido.
AGRADECIMENTOS
(1) A José Liberano Neto, cuja ajuda e apoio viabilizaram a matéria sobre seu avô.
(2) Aos IIr.'. Joel Venturini e Antônio Martins (este último, post-mortem) cujo valioso levantamento das atas da Loja são de notável e fundamental valia, sendo sempre fonte de referência para que possamos contar a história da mesma.
(3) Ao Ir.'. José Liberano que cedeu as fotos publicadas nesta matéria







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